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Ásia é a bola da vez
Desde meados do ano passado, 36 fundos ancorados na China e outras nações asiáticas foram registrados na CVM

Edição 334

Gestores e investidores brasileiros começam a voltar as suas atenções para a Ásia. Na esteira da rápida reação da região aos estragos econômicos causados pela pandemia da Covid-19, nada menos de 36 novos fundos locais ancorados em ativos e mercados emergentes asiáticos foram constituídos desde junho do ano passado, segundo os registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Com isso, o total dessas estratégias disponíveis para o investidor brasileiro eleva-se a 41. O principal motivo desse interesse é o crescimento chinês, que alcançou 2,3% em 2020, na contramão de Estados Unidos e União Europeia, e pode alcançar cerca de 9% neste ano.
“Os fundos de investimento no exterior disponíveis no Brasil ainda são predominantemente voltados aos Estados Unidos e à Europa, em razão da forte identificação de analistas e gestores com esses dois grandes blocos. Mas não é mais possível ignorar a Ásia, que vem apresentando, há tempos, crescimento pujante e, além de dispor de grande potencial de exportação, também já é referência global em termos de consumo”, comenta Isaac Marcovistz, head de produtos, comunicação e marketing da BB DTVM, que lançou dois fundos embasados no mercado asiático nos últimos quatro meses.
O projeto começou a ser desenhado na segunda quinzena de outubro de 2020, quando a CVM liberou o acesso de investidores pessoas físicas a recibos de ações de companhias listadas no exterior negociados na bolsa local, os chamados BDRs. Apostando numa forte demanda nesse segmento, a BB DTVM, que já contava com fundos de BDRs de perfis europeu, americanos e global, reforçou a sua grade com dois fundos de BDRs de Ásia, o BB Ações Bolsas Asiáticas e o BB Ações Bolsas Emergentes (60% de BDRs de Ásia).
Segundo Marcovistz, “a captação do Bolsas Asiáticas já ultrapassou R$ 100 milhões, mais do que o dobro do volume alcançado pelo segundo”. Os cotistas de ambos incluem pessoas físicas em geral, áreas de private de outras gestoras e até mesmo alguns regimes próprios de previdência de servidores públicos (RPPSs).
Animada com o sucesso da iniciativa, a BB DTVM resolveu lançar em parceria com a Mirae Asset um feeder do Asia Great Consumer, sob medida para EFPCs e RPPSs. Com ativos por volta de 1,9 bilhão de euros, o fundo tem 55,2% de seu portfólio alocado na China, 17,4% na Índia e 16,8% na Coreia do Sul. Desde seu lançamento, em junho de 2011, já alcançou uma rentabilidade por volta de 165%, quase 45 pontos percentuais acima do benchmark, o índice MSCI AC Asia ex Japan
Outras opções de investimentos em mercados externos estão nos planos da BB DTVM, incluindo parcerias com assets estrangeiras e desenvolvimento de produtos próprios. “Essas novidades não deverão ter apelos regionais ou geográficos”, destaca Marcovistz. “A ideia é oferecer multimercados, com diferentes classes de ativos, abrindo o leque dos fundos hoje muito concentrados em renda variável.”

Outra que lançou há poucas semanas um fundo de cotas de China foi a AZ Quest, com o Azimut Equity China FIC FIA comprando cotas do chinês AZ Equity China USD, cuja gestão é feita pela chinesa An Zhong (AZ) Investment Management, que assim como a AZ Quest é controlada pela italiana Azimut. Sediado em Luxemburgo e com patrimônio de 583,9 bilhões de euros, o fundo concentra 72% de suas alocações em empresas de cinco setores: serviços de saúde, bens de consumo imediato e duráveis, finanças e tecnologia.
“O fundo reúne cerca de 25 papéis de grandes companhias chinesas, casos de Meinian, Alibaba e Tencent, e apresenta um turn over reduzido: o portfólio atual corresponde a mais de 70% da composição original”, assinala Walter Maciel, CEO da AZ Quest, que esteve recentemente reunido com o sino-italiano Chao em Shanghai que comanda a An Zhong. “A Azimut dispõe de um grande diferencial no mercado chinês, pois foi a 11ª de um grupo de 25 gestoras estrangeiras autorizadas a operar diretamente na China”, explica.
Com 46,8 bilhões de euros sob gestão, a gestora italiana realizou as suas primeiras investidas na China há pouco mais de dez anos. A decisão foi tomada em razão do forte crescimento do País, que sofreu em escala bem menor do que o Ocidente os efeitos da crise financeira internacional no final da década de 2000. As projeções e apostas da Azimut se mostraram acertadas. “As classes média-alta e afluente, que respondiam por apenas 17% da população chinesa em 2012, devem atingir o patamar de 81% no próximo ano, o equivalente a 1,1 bilhão de consumidores de grande potencial”, observa Maciel. “Não por acaso, a China já é o maior mercado global de automóveis, computadores e celulares. Gestores e investidores não podem ignorar esse fenômeno.”
Enquadrado à Resolução 4.661, o fundo “chinês” da AZ Quest tem nas EFPCS um de seus públicos-alvo prioritários. Maciel acredita que dos R$ 500 milhões que o fundo espera captar nos próximos meses, parte significativa deve vir das EFPCs. “Os institucionais estão em busca de fundos de exterior, que têm apresentado retornos mais consistentes”, diz ele. A AZ Quest tem cerca de R$ 3 bilhões sob gestão vindo de fundos de pensão.

Se o interesse por fundos de exterior é intenso entre os institucionais, isso não é menos verdadeiro no varejo. Segundo a XP, o patrimônio dos fundos internacionais sob administração da casa cresceu 1.775% entre janeiro de 2020 e fevereiro último, para cerca de R$ 30 bilhões, e o número de fundos saltou de 32 para 150. A captação de R$ 1,5 bilhão em menos de seis meses por um fundo global de ações da americana Wellington Management, lançado em março do último ano pela XP, foi o sinal de que os investidores estavam abertos a uma maior variedade no cenário internacional.
“A partir do segundo semestre de 2020, passamos a dar ênfase em novidades ligadas a economias emergentes, com destaque para a China”, diz o coordenador de fundos internacionais da XP, Fabiano Cintra. “É uma preferência lógica, pois a China há tempos se tornou referência para a alocação de recursos e deve se tornar a maior economia global até o fim da década.”
Hoje, o cardápio da XP dispõe de cerca de 20 fundos ligados à China e Ásia. A lista inclui veículos com gestão de terceiros, como Wellington e J.P. Morgan, um fundo referenciado no mercado acionário da Índia, em fase pré-operacional, e um ETF atrelado ao índice MSCI China, o XINA11, que desde o lançamento, em dezembro passado, já captou R$ 300 milhões. “Nos últimos 90 dias, a captação dos fundos ligados à China ultrapassou R$ 1 bilhão”, destaca Cintra. “China e Ásia foram fundamentais no crescimento da XP em 2020 e, tudo indica, repetirão a dose neste ano.”
A XP, que segue negociando a ampliação de sua grade de produtos, acredita que a oferta de boas opções é fundamental para convencer investidores institucionais a realizarem aplicações do outro lado do planeta. “As fundações de previdência locais ainda demonstram timidez em relação aos mercados externos, de uma forma geral”, diz Cintra. “Diferente do que acontece no mercardo chileno, onde os fundos de pensão já investem 45% de seus ativos, algo em torno de US$ 90 bilhões, no exterior, com exposições na Ásia superiores às mantidas nos Estados Unidos e na Europa.”

Voltada preferencialmente aos investidores pessoas físicas, a Vítreo aderiu à onda asiática há seis meses. A estreia, com o Tech Asia FIA BDR Nível I, foi reflexo de demandas geradas pelos clientes. “Em junho de 2020, lançamos o Tech Select, voltado a grandes empresas tecnológicas, na maioria dos Estados Unidos”, conta o sócio e gestor George Wachsmann. “A tese foi bem recebida, com a captação rapidamente atingindo a marca de R$ 300 milhões, mas fomos cobrados por investidores sobre a ausência, na carteira, dos gigantes tecnológicos da Ásia. Começamos então a desenhar um fundo com essa proposta.”
A intenção da Vitreo era contar no portfólio do Tech Asia com um bom lote de papéis do Ant Group, fintech do grupo chinês Alibaba que anunciou, em meados de 2020, o plano de fazer o maior IPO da história, no valor de US$ 35 bilhões. O cancelamento desse IPO em novembro frustrou a asset, que tinha se credenciado para a operação, mas não comprometeu os resultados do seu fundo. Com R$ 360 milhões e 19 mil cotistas, o fundo Tech Asia alcançou retorno de 22,36% no primeiro bimestre do ano. “A carteira do fundo soma cerca de 12 papéis, com destaque para empresas chinesas, japonesas e sul-coreanas”, diz Wachsmann.
Animada, a gestora prepara o lançamento de um similar sem o corte tecnológico. “Estamos iniciando as operações de um fundo de BDRs de mercados emergentes que detém 80% de suas posições na Ásia. Mas alguns desses papéis, entretanto, compõem o portfólio do Tech Asia”, diz Wachsmann.