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Bolsa em clima de festa
Com 13 ofertas iniciais de ações realizadas no primeiro bimestre e cerca de 50 novas operações em análise na CVM, mercado mostra-se otimista

Edição 334

O ano começou quente para o mercado de Ofertas Iniciais de Ações (IPOs), com a realização de nada menos que 13 operações entre janeiro e fevereiro, movimentando R$ 10,60 bilhões. São números que batem os recordes anteriores para o mesmo período, superando em 85% o ano de 2007 na quantidade de operações e em 250% o ano de 2020 no volume movimentado. Na primeira quinzena de março os lançamentos abrandaram, mas cerca de 50 operações aguardam a análise da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para virem à mercado na B3.
Os especialistas acreditam que o processo de lançamentos será retomado em breve, com a desova gradual das operações sob análise da CVM. “A freada em março foi natural, pois há janelas para a execução de IPOs. Em abril, com a divulgação de uma nova safra de demonstrativos financeiros pelas empresas, o forte movimento registrado no primeiro bimestre deverá ter reinício”, avalia José Eduardo Laloni, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Segundo ele, tanto as operações recentes e as que aguardam na fila são sinais do fortalecimento do mercado de capitais brasileiro. Além de um vigor atípico para um início de ano, Laloni comemora a queda do tíquete médio das operações. “O tíquete médio, antes por volta de R$ 1 bilhão, está em queda. Diversas ofertas iniciais nos últimos 12 meses ficaram abaixo de R$ 400 milhões”, diz ele. Outro motivo de comemoração é o ingresso de novos segmentos de empresas no mercado. “Os novos setores que estão entrando na bolsa, como tecnologia, saúde e educação, são muito promissores”, diz. Ele também destaca o interesse crescente do agronegócio, traduzido em IPOs de usinas de açúcar e álcool, como positivo.
Responsável pela estruturação de várias das operações, a XP também demonstra otimismo. O interesse dos investidores por novas ações, observa o head de investment banking Pedro Mesquita, ganhou impulso a partir de 2019, quando a Selic iniciou uma forte trajetória de queda, e tende a se manter em níveis elevados, pelo menos no curto prazo. “Com a Selic abaixo do patamar de 5% ao ano, o mercado de capitais não sofrerá abalos”, assinala Mesquita, que destaca a importância da expansão do universo de investidores. “É um fenômeno recente essa entrada de milhões de novos investidores pessoas físicas na Bolsa, que viabilizou IPOs de menor volume. Um exemplo é a Prinner Serviços Industriais, que captou R$ 173 milhões em 2020, em operação liderada pela XP.”
A tendência de alta não tende a ser interrompida, na avaliação do executivo, nem mesmo pela ainda frágil reação da economia local aos estragos causados pela pandemia da Covid-19. O entendimento do mercado, assinala Mesquita, é de que a recessão será de curto prazo, com uma rápida recuperação após a solução da crise sanitária. “Investidores em ações levam em conta, claro, cenários macroeconômicos, mas concentram suas atenções em empresas, cujo leque vem ganhando novas opções”, diz. Ele projeta para este ano um volume de IPOs próximo ao recorde de 2007, quando foram realizadas 51 operações.

Os institucionais, entretanto, vêm demonstrando um apetite reduzido por esses lançamentos. Segundo indicadores da Anbima, os investidores institucionais – grupo que inclui fundos de pensão, assets, seguradoras e tesourarias de bancos – absorveram apenas 13,6% das ações emitidas no primeiro bimestre, abaixo dos 14,8% de 2020. “As fundações de previdência ainda têm presença tímida nos IPOs”, diz Laloni. “Deveriam dedicar maior atenção, por exemplo, às chances em empresas de infraestrutura, que estão ganhando espaço nas emissões iniciais e têm excelentes perspectivas no médio e longo prazos, devido à carência de investimentos no setor.”
A Fundação Copel e o Postalis são dois fundos de pensão que começam a ver com um olhar diferente o mercado de IPOs. Patrocinada por companhias energéticas do Paraná, a primeira nunca havia demonstrado interesse por investimentos diretos em empresas, seja por meio de aquisições de ações ou de cotas de fundos de private equity. Mas tal postura já começa a ser revista na carteira própria da entidade, gerenciada pela 4 UM, que soma cerca de R$ 170 milhões, cerca de 19% das posições em renda variável. “Já realizamos alguns investimentos pontuais, especialmente em empresas de tecnologia e saúde. Um exemplo é a Locaweb, cujas ações começaram a ser cotadas na bolsa de valores em fevereiro do último ano e apresentaram valorização acumulada de mais de 400%”, diz o diretor de investimentos José Carlos Lakoski.
Ele diz que compartilha do entusiasmo da 4UM com a chegada de novos setores ao mercado acionário, como as fintechs e negócios ligados às áreas de educação, saúde e agronegócio. “Pretendemos realizar novas investidas em empresas estreantes na bolsa”, diz Lakoski. “No primeiro bimestre, contudo, como a 4 UM considerou os preços de lançamentos um pouco altos, acabamos não comprando.”
Já o Postalis, o fundo de pensão dos funcionários dos Correios, incluiu a participação em IPOs em seu projeto de duplicar em 2021 as aplicações em renda variável, que respondem, atualmente, por 10% dos R$ 9 bilhões de ativos totais. A decisão é reflexo, entre outros fatores, dos resultados colhidos em operações do gênero pelos gestores que prestam serviços à fundação. “Os fundos de renda variável nos quais investimos alcançaram excelentes retornos com pequenas posições adquiridas em ofertas iniciais de empresas como Bemobi, Mosaico e Rede D’Or”, diz o diretor de investimentos Pedro Pedrosa. “Agora, já estamos planejando alocações diretas em IPOs.”
A tarefa ficará a cargo do núcleo de renda variável, que cuidará da montagem da carteira própria de ações da entidade. O grupo, que deve iniciar seus trabalhos até o fim do primeiro semestre, será composto por um especialista a ser contratado, o analista de títulos públicos e o profissional encarregado de cenários econômicos e da avaliação da correlação entre ativos e passivos. “O núcleo responderá à gerência de investimentos e executará estratégias de gestão ativa”, diz Pedrosa. “Ainda estamos traçando normas e regras internas em relação à participação em IPOs. As primeiras alocações deverão ocorrer no segundo semestre.”
Com a forte expansão programada para a renda variável, o Postalis prepara outras mudanças na estratégia. Hoje centralizadas no fundo exclusivo FIC FIA Postal Brasil, pilotado pela Vinci Partners,a compra de participações incluirá, além da carteira própria, também um segundo fundo exclusivo, prestes a ser criado. “Dois gestores externos e um interno formarão um bom mix”, diz Pedrosa, que destaca a importância da participação em IPOs para a entidade. “Nos próximos meses, deverão ganhar espaço na bolsa de valores empresas parrudas e bem geridas, como a Kalunga, que podem nos garantir bons dividendos no longo prazo. Vamos analisar com muita atenção IPOs de companhias aderentes à nossa política de investimentos.”

A timidez das fundações em relação aos IPOs tende, no entanto, a diminuir, prevê Sérgio Wilson Ferraz Fontes, diretor executivo e responsável pela área de investimentos da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) e presidente da Fundação Real Grandeza. Segundo ele, como agentes fiduciários de planos de complementação de aposentadorias elas têm por obrigação executar análises mais criteriosas dos lançamentos e se manter completamente à margem do chamado efeito manada.
A diversificação dos setores negociados na bolsa de valores, contudo, é um ponto a favor dos fundos pensão. “Algumas entidades mais comedidas vão aguardar a evolução das negociações dos novos papéis no mercado para entrar, mas já percebo uma maior disposição de participar diretamente de IPOs”, diz Fontes.

Carteiras próprias em alta
A gestão interna de carteiras de renda variável rendeu bons retornos aos fundos de pensão em 2020. A relação inclui, entre outras entidades, Capef, Metrus e Vivest. A primeira, patrocinada pelo Banco do Nordeste do Brasil, obteve uma valorização de 53% entre abril e dezembro em seu portfólio de ações, que ganhou uma injeção de R$ 18 milhões logo após a eclosão da pandemia da Covid 19 e chegou a realizar aquisições em IPOs.
Já o Metrus, que administra planos de complementação de aposentadoria dos funcionários do Metrô paulistano, colheu nas aplicações próprias em renda variável dos planos I e II, em 2020, retornos de 9,67% e 9,53%, respectivamente 4,30 e 4,57 pontos percentuais acima dos ganhos obtidos pelos fundos. “O Plano II, que tem 16,5% de exposição em renda variável, faz internamente a gestão de um quarto desse volume através de aplicações em cerca de 15 empresas sólidas e com boas políticas de dividendos”, conta a diretora de investimentos e previdência Keiti Bianconi. Ela diz que a fundação quer elevar um pouco as aplicações de renda variável do Plano II, e pode fazer isso via carteira própria.
Mais radical, a Vivest internalizou 100% da gerência da renda variável há nove anos. A dispensa dos gestores externos foi fruto do corte pela metade da carteira de renda variável, para 12,62% atualmente. “Como o enxugamento foi muito forte, concluímos que não valia a pena recorrer a serviços de terceiros”, diz o diretor de investimentos ,Jorge Simino Júnior. “Desde 2016, temos ficado acima da mediana de retorno dos fundos de renda variável.”
No ano passado, apesar dos estragos causados pela pandemia da Covid-19, o portfólio de renda variável da Vivest rentabilizou 8,27%, inferior apenas à dos investimentos no exterior (29,3%). O bom desempenho contou com a contribuição do fundo exclusivo Pirineus, constituído em abri, que valorizou 53,80% em 2020. “O fundo conta com cerca de 15 papéis de empresas robustas, com altos padrões de gestão e governança, e detentoras de grandes fatias de mercado ”, diz Simino.
Na avaliação do executivo, entretanto, a opção pela gestão interna de renda variável, mesmo que em caráter parcial, está longe do alcance da maioria das fundações, até mesmo das de médio porte. Ele explica que frente aos investimentos necessários para a montagem da equipe e a aquisição de equipamentos e sistemas, a estrutura só faz sentido para casas com patrimônio a partir de R$ 10 bilhões. “É uma opção que permite reduções de gastos com taxas cobradas pelos fundos, mas que exige alguma escala das entidades”, diz.