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Adaptando-se aos novos riscos
Um ano difícil para os gestores, que tiveram que se adaptar rápido às mudanças impostas pelo mercado e pelas demandas dos investidores

Edição 334

“Com volatilidade nós já estávamos habituados, mas com crises na área da saúde não”. A frase, do sócio e gestor de fundos de investimentos em ações da JGP, Márcio Roberto Correia, define a perplexidade do mercado de gestão de recursos frente às variáveis trazidas pelo novo coronavírus. A perspectiva era de que a saída dessa crise sanitária trazida pelo Covid-19 seria mais fácil do que a de 2008, já que não havia tanto medo de uma depressão global. Alguns setores mais expostos, como turismo, restaurantes, etc, tiveram e continuam tendo muita dificuldade, enquanto outros conseguiram superar melhor. “A crise desta vez não atingiu o coração do mercado financeiro e os estímulos monetários e fiscais lembraram um período de guerra sem destruir a infraestrutura e com um choque de oferta que não foi tão dramático e generalizado, embora estejamos vendo um pouco disso agora em alimentos e commodities”, pondera Correia. A bolsa caiu, os fundos de ações sofreram. “Na JGP, estávamos comprados em ações e não tínhamos uma porção em caixa, ao contrário de algumas outras casas”, conta o gestor.
Depois do sofrimento inicial, veio a troca de posições por ações de empresas mais adequadas, diz Correia, com valuation elevado e ganhos de market share, estrutura de balanço sólida e cultura melhor. Foi a hora de ir às compras no mundo digital e nos papéis dos exportadores, para garantir exposição ao dólar. “O Brasil é frágil sob os aspectos fiscais e institucionais, então buscamos empresas boas e dolarizadas, sem fragilidades de governança, só estatais de qualidade, como a Eletrobras, e recuperamos os resultados”. Segundo ele, o ano trouxe também a necessidade de buscar menos temas da economia doméstica e mais temas digitais. “Foi o ano em que aceleramos o processo de aculturamento ESG, acompanhando o que aconteceu globalmente”, sublinha o gestor da JGP.

Difícil e nada trivial, o ano de 2020 exigiu adequações rápidas à realidade da pandemia por parte dos gestores de fundos de investimentos. Na Bram - Bradesco Asset Management, o movimento de colocar toda a equipe em home office foi rápido e permitiu manter a agenda estratégica sem interrupções, avalia o diretor superintendente da asset, Ricardo Eleutério. O modelo multi produtos e multi estratégias adotado pela gestora foi importante para avançar na grade de alternativas e crescer em meio à crise, com a oferta de alternativas diversificadas de fundos tanto no mercado local como no internacional. “Fomos adicionando várias regiões do mundo, tentando sair do MSCI World e do S&P, ampliando parcerias com gestores, alguns deles exclusivos, conta Eleutério. Entre os investidores institucionais, ele identifica uma demanda diversificada, olhando para fundos mais sofisticados e para os ativos alternativos na busca por retornos diferenciados.
“Boa parte dos prêmios no ano passado veio da diversidade de estratégias para casar com as necessidades desses investidores em ambiente de juros baixos. O ambiente virtual ajudou a gestora com um “plus” em seu posicionamento para garantir informação sobre os fundos aos investidores; em fundos de previdência fechada foi essencial ter todos os tipos de investimento, incluindo carteiras de renda fixa que abranjam todos os sub-índices e estratégias, enquanto as estratégias descorrelacionadas foram o destaque na renda variável.
A plataforma de fundos de fundos, os Fofs, agregou capacidade de prover os investidores de novas estratégias. “O veículo fundo de fundo trouxe maior diversificação entre 2019 e 2020, é um movimento mais recente que acompanhou a queda dos juros para 2% ao ano e a demanda por ativos diversificados”, diz Eleutério. A plataforma foi destaque de captação no ano passado e conta com mais de 80 Fofs. De 2020 para cá, a equipe de gestão da Bram cresceu com os Fofs e crescerá mais neste ano, quando a asset pretende entrar no mercado de private equity (PE). Vamos trazer um profissional para cuidar exclusivamente do segmento de private equity, que será lançado ainda no primeiro semestre”, informa Eleutério. Será um Fof de PE, de olho no retorno mas também na governança e na busca de valor agregado. À medida que avança nos investimentos alternativos, a Bram prepara também para o primeiro semestre o lançamento de um novo fundo de crédito high yeld.
A casa avançou ainda na parcela de fundos internacionais e nos aspectos de sustentabilidade, já que os filtros ESG (responsabilidade ambiental, social e de governança) permeiam 99% dos ativos da Bram e são aplicados inclusive na seleção de gestores. A avaliação é de que os prêmios vieram como resultado desse modelo multi estratégias e também pelos processo de investimento e de prestação de contas, que refletem a governança do Bradesco; os destaques do ano passado ficaram com a plataforma de fundo de fundos e carteiras no exterior. Em 2020, os ETFs também continuaram a crescer e a prateleira da Bram, criada em junho de 2019, está com dois ETFs de renda fixa e um de renda variável, atingindo 10% de market share.
“A renda fixa é uma classe importante para as EFPC, que tomaram mais risco na virada deste ano, assim como o segmento específico de fundos de crédito privado que as fundações buscam para casar com seus passivos”, afirma Eleutério. Na classe de multimercados quantitativos, aos três perfis originais de fundos – moderado, dinâmico e agressivo – com níveis de volatilidade diferenciados de respectivamente 1,5%, 2% e 2,75%, foi acrescido um quarto perfil. “Em 2020 lançamos o perfil alfa de alocação, com volatilidade de 7%, e atualmente a mesa de quantitativos, criada recentemente, já tem mais de R$ 25 bilhões sob gestão”, conta Eleutério.

Na BB DTVM, o ano do avanço do coronavírus trouxe maior complexidade à gestão de fundos e impôs uma adequação das decisões à demanda dos investidores. “Fomos surpreendidos pela pandemia mas, do lado positivo, também houve uma surpresa com o comportamento dos investidores, que não saíram de suas posições compradas, como poderia ter acontecido.Eles se mantiveram comprados até mesmo na renda fixa privada, a despeito da grande volatilidade no mercado de crédito privado”, avalia o diretor da área comercial e de produtos da casa, Julio Vezzaro. Essa maior tranquilidade dos investidores deu oportunidade para a manutenção de posições pelos gestores.
A queda na bolsa, seguida por uma recuperação gradual, foi sucedida pela entrada de novos recursos atrelados ao investimento de risco. No segundo semestre, com teses mais claras de alocação, os gestores puderam ir acrescentando mais risco para capturar ganhos à medida em que o mercado antecipava uma possível recuperação. “Ao longo de quatro meses fizemos essa mudança e ampliamos o escopo de alocação em mercados internacionais, lançamos produtos para o exterior e isso foi importante para aproveitar os movimentos de recuperação dessincronizada das economias nas diversas partes do mundo”, ressalta Vezzaro.
Na renda fixa, as estratégias de melhor desempenho mostraram que a gestão foi capaz de antecipar o cenário de juros e fez uma leitura correta das variáveis, além de atuar de forma ativa. Um dos produtos mais relevantes foi a renda fixa ativa para institucionais, com liberdade para mesclar títulos pós e pré-fixados atrelados à inflação e ativos de renda fixa privada. Não foram apostas específicas as que ganharam, diz ele, mas a capacidade de promover gestão ativa em ano muitas surpresas no mercado de juros, com a Selic terminando em 2%. Tanto em fundos de ações quanto nos fundos multimercados, a categoria com maior captação líquida no ano, a qualidade da gestão fez toda a diferença, diz Vezzaro: “Os investidores demandaram expertise de gestão e quiseram acessar o exterior frente à Selic reduzida”.

A volatilidade que atingiu todas as classes de fundos de investimentos em 2020 seguirá alta até 2022, o que exigirá dos gestores manter a atenção aos riscos e instrumentos de proteção aos investimentos. Essa atenção ajudou a contornar perdas em fevereiro e março do ano passado, momento em que todas as carteiras estavam sofrendo, fossem de renda fixa, ações ou multimerados, aponta o sócio e diretor da Vinci Partners, Fernando Lovisotto. “Sofremos menos com o movimento inicial de saída dos riscos, e depois, quando os estímulos fiscais e monetários vieram e o mercado reagiu, fomos suficientemente ágeis para perceber que a retomada da atividade econômica viria e traria inflação mais forte, conseguindo capturar isso nos resultados no último trimestre do ano”, pontua Lovisotto. Como resultado, a gestora cresceu em todas as classes para atender à demanda dos institucionais, sobretudo nos fundos de investimento no exterior, o grande destaque do ano e que segue em alta em 2021.
Os fundos multimercados estruturados devem manter o destaque, na avaliação do gestor, assim como os fundos de crédito, que seguem com demanda elevada. “O cenário este ano repete a volatilidade mas também abre oportunidades em crédito já que os títulos têm desconto compatível com as metas dos fundos de pensão e isso tem induzido a demanda”. Atingir metas dos planos de benefícios das entidades fechadas de previdência complementar em ambiente incerto é uma incumbência que já tem inflado o apetite por risco e tende a ampliar ainda mais a migração para as classe de maior risco.
Na Vinci, uma estratégia que ganhou destaque em 2020 foi a de exterior que combinou renda fixa e retorno absoluto em bolsa, diversificação que garantiu retorno próximo a 9% em dólar, ilustra Lovisotto. “A carteira foi construída para render a meta atuarial ao longo do tempo, com maior atenção à renda fixa lá fora”. O fator câmbio ainda amarra as decisões de investir no exterior, mas os dirigentes de fundos de pensão começam a compreender que é mais importante olhar para as carteiras como um todo e não tentar apenas operar o dólar. “Se a fundação não reduz posição em bolsa, faz sentido buscar a descorrelação com as bolsas de outros mercados porque as duas coisas caminham juntas e isso ficou muito claro no ano passado”.
Em relação aos fundos multimercados, o apetite dos institucionais segue firme por conta do juro real baixo e da necessidade de aumentar retornos e manter liquidez. No Brasil, havia três barreiras de segurança a serem consideradas pelos fundos de investimentos, diz o sócio da Vinci. A questão do teto de gastos aliada à PEC emergencial e o BC independente. Sem o teto, 2020 teria sido muito mais grave do que foi, acredita Lovisotto. Este ano, a PEC e a autonomia do BC devem ajudar, mas restam os pontos ligados à eleição de 2022 e à questão fiscal.

Ranking - Data base 31/12/2020 ( arquivo em pdf)

Performance geral dos gestores ( arquivo em pdf)